China e Vietnã reforçam parceria pela “causa do socialismo mundial”
Unidos por uma fronteira terrestre de mais de 1.400 quilômetros e por décadas de cooperação entre seus partidos comunistas, China e Vietnã aprofundaram mais uma vez sua parceria estratégica. Na terça-feira (14), Wang Huning, um dos principais dirigentes do Partido Comunista da China (PCCh) e membro do Comitê Permanente do Bureau Político do Comitê Central, recebeu em Pequim uma delegação do Partido Comunista do Vietnã (PCV).
Durante o encontro, Wang afirmou que o fortalecimento das relações entre os dois países contribui para a “causa do socialismo mundial”, expressão que ganhou destaque tanto na imprensa chinesa quanto na vietnamita. A declaração reafirma a cooperação entre países socialistas em meio à disputa geopolítica, ao protecionismo e às pressões sobre modelos alternativos de desenvolvimento.
Da fronteira à parceria estratégica
A longa fronteira compartilhada ajuda a explicar a densidade dessa relação. A faixa que separa e, ao mesmo tempo, aproxima os dois países estende-se desde o encontro triplo com o Laos até o golfo de Tonquim, atravessando regiões montanhosas historicamente habitadas por diferentes minorias étnicas. Durante séculos, essa fronteira foi palco de intercâmbios culturais, disputas e conflitos. Hoje, é um espaço de integração econômica e política.
A cooperação bilateral ultrapassa a dimensão diplomática. Há 19 postos fronteiriços em operação, como o Portão Shuo Long, inaugurado recentemente entre Cao Bằng e Guangxi. Os países preveem chegar a 26 até 2030. Corredores ferroviários em modernização ampliam a conectividade bilateral. O comércio bilateral já alcançou US$ 290 bilhões em 2025, convertendo o Vietnã num dos principais parceiros comerciais da China.
Huning destacou que os dois partidos devem implementar o consenso alcançado entre o secretário-geral do PCCh, Xi Jinping, e o secretário-geral do PCV, Tô Lâm, aprofundando vínculos políticos, fortalecendo mecanismos permanentes de diálogo e ampliando a cooperação interpartidária. A agenda se insere na construção da Comunidade China-Vietnã com Futuro Compartilhado, que procura ampliar a integração, fortalecer cadeias produtivas estratégicas, desenvolver infraestrutura física e digital e expandir a cooperação em setores como semicondutores, energia renovável e inovação tecnológica.
Integração para o desenvolvimento
A estratégia busca consolidar uma arquitetura regional baseada em desenvolvimento compartilhado e soberania nacional. Integrante do Bureau Político do PCV, Lê Minh Trí afirmou que seu partido pretende ampliar o intercâmbio de experiências com o PCCh em áreas como governança, construção partidária, inspeção disciplinar e administração pública. A programação da visita também contemplou reuniões entre órgãos responsáveis por supervisão estatal e combate à corrupção. O tema é tratado como prioridade para fortalecer as instituições socialistas e aperfeiçoar a gestão pública.
Embora China e Vietnã mantenham relações estreitas há décadas, a referência explícita à “causa do socialismo mundial” merece atenção. A diplomacia chinesa costuma privilegiar conceitos como “comunidade de futuro compartilhado”, “desenvolvimento comum” e “cooperação ganha-ganha”. Ao empregar uma formulação diretamente vinculada ao socialismo, a liderança do PCCh confere maior visibilidade ao papel das relações entre partidos comunistas na construção de uma ordem internacional multipolar.
Economia e socialismo
A dimensão política dessa aproximação encontra respaldo no desempenho das duas economias. Enquanto o FMI revisa para baixo as projeções de boa parte das economias avançadas, China e Vietnã seguem em expansão. A China, segunda maior economia do planeta, lidera setores como infraestrutura, manufatura de alta tecnologia e energias renováveis. No primeiro semestre de 2026, o PIB cresceu 4,7%, enquanto a manufatura de alta tecnologia avançou 13,3%.
O Vietnã também mantém forte dinamismo. O PIB cresceu 8,18% no primeiro semestre de 2026, o maior ritmo desde 2011, impulsionado pela industrialização, pela infraestrutura e pela integração às cadeias globais de produção.
Esses resultados caminham ao lado da estabilidade política proporcionada pelos sistemas dirigidos por seus respectivos partidos comunistas. Nos dois países, planejamento estatal e mecanismos de mercado são subordinados a objetivos nacionais de longo prazo, como soberania, modernização econômica e melhoria das condições de vida da população.
Uma referência para o Sul Global
China e Vietnã compartilham, ainda, uma trajetória de lutas anticoloniais. A Revolução Chinesa de 1949 e a vitória vietnamita sobre o colonialismo francês e o imperialismo norte-americano moldam até hoje suas visões de desenvolvimento, soberania e construção do socialismo.
Por essa razão, a aproximação entre Pequim e Hanói desperta interesse muito além da Ásia. Para numerosos países do Sul Global que buscam combinar crescimento econômico, autonomia política e redução das desigualdades, as experiências chinesa e vietnamita são importantes referências de desenvolvimento soberano.
Ao reafirmarem o compromisso com a “causa do socialismo mundial”, China e Vietnã projetam uma mensagem que ultrapassa suas relações bilaterais. Na fronteira que une os dois países circulam mercadorias, investimentos e pessoas – mas também a convicção de que o socialismo, no século 21, é uma força viva, produtiva e capaz de inspirar outras nações.




