Documentos provam que ditadura mentiu sobre execução de Lincoln Oest
A imprensa corroborou a versão dos militares
A verdade, por muito tempo soterrada pela maquinaria de propaganda e tortura da ditadura militar, começa a emergir das sombras dos porões. Um procedimento disciplinar interno do Centro de Informações do Exército (CIE), resgatado pelo projeto “Bandidos de farda” do ICL Notícias, escancara uma das muitas farsas fabricadas pelo regime para encobrir a execução de opositores políticos. No centro da revelação está a morte de Lincoln Cordeiro Oest, importante dirigente do Partido Comunista do Brasil (PCdoB), cuja imagem foi vilipendiada por décadas para esconder a covardia dos torturadores.
Os documentos, que pertenciam ao acervo ilegalmente apropriado pelo coronel Cyro Etchegoyen, não apenas desmentem a versão oficial de “tentativa de fuga”, mas também expõem a podridão moral dos agentes do Estado, que chegaram a roubar o dinheiro apreendido no esconderijo do militante. Para a família de Lincoln, a descoberta é um bálsamo tardio contra o estigma de “terrorismo” que a ditadura tentou, em vão, impor à sua linhagem.
A farsa da “fuga” e o cinismo do CIE
Lincoln Oest foi preso com vida em 20 de dezembro de 1972, no Rio de Janeiro. Levado para o inferno do DOI-Codi, na Rua Barão de Mesquita, ele foi barbaramente torturado e executado. No entanto, o Exército reteve seu corpo por 17 dias, registrando-o no Instituto Médico-Legal como “indigente”.
Quando a pressão tornou-se insustentável, a ditadura orquestrou uma campanha de desinformação. Jornais como O Globo e Jornal do Brasil publicaram, em janeiro de 1973, a narrativa fantasiosa de que Lincoln teria tentado fugir durante uma suposta operação para captar outro dirigente, Luiz Ghilardini. O atestado de óbito falsificado falava em “ferimento penetrante do crânio”, mas a família sempre soube a verdade: o corpo estava crivado de balas, metralhado pelos agentes.
O relatório recentemente descoberto do CIE, que apurava desvios de conduta de seus próprios agentes, confirma a prisão e revela um detalhe que enoja: ao “estourar” o aparelho de Lincoln, os militares encontraram “muito dinheiro” destinado à logística partidária. O documento, contudo, não registra o repasse do valor aos cofres públicos, apontando para o roubo puro e simples por parte dos integrantes da repressão.

O cerco ao Araguaia, a caçada ao PCdoB e o silêncio sob tortura
Para compreender a caçada a Lincoln, é preciso mergulhar no contexto histórico minuciosamente detalhado nas biografias de dirigentes comunistas (Renato Rabelo, Pedro Pomar e Maurício Grabois) pelo jornalista Osvaldo Bertolino. O ano de 1972 marcava o início da ofensiva sangrenta das Forças Armadas contra a Guerrilha do Araguaia. Lincoln, membro da Comissão de Organização, era o elo vital da logística que conectava a direção nacional à resistência armada no sul do Pará.
A prisão de Lincoln ocorreu durante a ampla ofensiva lançada pelos órgãos de repressão para destruir as estruturas do PCdoB e isolar a Guerrilha do Araguaia. De acordo com Osvaldo Bertolino, a operação começou após a captura de um dirigente partidário no Espírito Santo. Sob tortura, ele revelou contatos que levaram os agentes até Lincoln.
Submetido ao “inferno” do DOI-Codi, Lincoln pagou com a vida a sua decisão inabalável de nada revelar. Preso, Lincoln recusou-se a fornecer informações aos interrogadores. Bertolino registra que ele “pagou com a vida a decisão de nada falar”. Seu motorista, também detido e submetido a torturas, acabou revelando um encontro marcado com o secretário de Organização do partido, Carlos Nicolau Danielli. A isca funcionou, e Carlos Nicolau Danielli, secretário de Organização do PCdoB e arquiteto da base material do Araguaia, caiu na armadilha.
Diante do major Carlos Brilhante Ustra, Danielli fez de sua dor um testamento político. “É disso que vocês querem saber? Pois é comigo mesmo. Só que eu não vou dizer”, desafiou. Antes de ser assassinado, Danielli escreveu na parede de sua cela, com o próprio sangue, a sentença que a história viria a confirmar: “Este sangue será vingado”. Pouco depois, Luiz Ghilardini e Lincoln Bicalho Roque também seriam assassinados, selando o martírio da direção do Partido.
Uma linhagem de luta e sangue comunista
A trajetória de Lincoln Oest atravessa momentos decisivos da história política brasileira. Segundo relata o jornalista Osvaldo Bertolino em suas biografias de dirigentes comunistas, Lincoln integrava o Comitê Central do PCdoB desde os anos 1950 e participou ativamente da articulação política em defesa da democracia.
Em 1955, ao lado de João Amazonas, esteve entre os dirigentes que apoiaram a candidatura de Juscelino Kubitschek contra as tentativas golpistas que ameaçavam impedir a realização das eleições presidenciais. Amazonas relatou posteriormente uma conversa direta com Juscelino, da qual Lincoln participou, na qual o futuro presidente prometeu interromper a perseguição jurídica aos comunistas caso fosse eleito.
A família Oest também possuía forte tradição política. Henrique Cordeiro Oest, irmão de Lincoln, foi deputado comunista após as eleições de 1945. Os irmãos tiveram ainda destaque no futebol profissional, atuando em clubes tradicionais como Flamengo, Vasco e América.
A tentativa da ditadura de transformar Lincoln em um “bandido” ou “assassino” esbarra na história de uma família dedicada às causas populares e à democracia. Como revelam os arquivos da vida parlamentar, a combatividade era um traço familiar. Em 1947, durante a sessão na Câmara que tentava cassar os mandatos comunistas, o deputado Henrique Oest, irmão de Lincoln e também militante, enfrentou fisicamente e verbalmente o deputado Barreto Pinto para defender a honra de Maurício Grabois e do Partido.
Lincoln não era um “terrorista” isolado; conforme registra Bertolino, era um internacionalista que, ao lado de João Amazonas, percorreu a China e foi recebido por Mao Tse-tung, buscando solidariedade e caminhos para a emancipação dos trabalhadores. A perseguição à sua família — com a avó Erlita adoecendo de depressão, a filha Vânia vivendo na clandestinidade e a neta Monica sofrendo bullying escolar por ser “neta de assassino” — demonstra o verdadeiro rosto do regime: o terrorismo de Estado contra a inocência e a memória.

A verdade como vingança da história
Os documentos resgatados pelo projeto “Bandidos de farda” e o resgate biográfico promovido por Osvaldo Bertolino cumprem um papel fundamental: desarmam a narrativa dos algozes. A ditadura militar tentou usar a burocracia do Estado para forjar culpados, roubar patrimônios e desaparecer com corpos.
As revelações dos documentos reforçam testemunhos já apresentados por ex-presos políticos e familiares de Lincoln Oest, que há décadas contestavam a narrativa oficial da ditadura. O atestado de óbito, depoimentos de presos que ouviram as sessões de tortura e os relatos da família sempre apontaram para uma execução dentro das dependências do DOI-Codi.
Mais de cinco décadas depois, os documentos encontrados no arquivo mantido pelo coronel Cyro Etchegoyen acrescentam novas evidências a esse conjunto de provas. Para familiares e pesquisadores da repressão política, a documentação representa mais um passo na reconstrução da verdade histórica sobre os crimes cometidos pela ditadura militar e na recuperação da memória de um dirigente que dedicou sua vida à luta política, à resistência democrática e à organização dos comunistas brasileiros.
No entanto, a teimosia da verdade e a memória militante provaram que os verdadeiros bandidos usavam farda. A promessa escrita em sangue por Danielli nas paredes do DOI-Codi segue ecoando: a história, implacável, já começou a vingá-los.
por cezar xavier




