Porta-voz do Ministério do Exterior do Irã, Esmaeil Baghaei | Foto: Ministério do Exterior do Irã

O Irã rechaçou nesta quarta-feira (24) a provocativa declaração do secretário de Estado Marco Rubio, de que “seria impossível” o cessar-fogo completo em todo o Oriente Médio determinado pela primeira cláusula do acordo assinado na semana passada, denunciando a manobra dos EUA para tentar “reinterpretá-la”.

O porta-voz do Ministério das Relações Exteriores do Irã, Esmaeil Baghaei, exigiu que Washington cumpra integralmente os termos acordados, registrou a agência iraniana de notícias, Tasnim.

“O establishment governante americano deve compreender que o princípio de ‘compromisso por compromisso’ exige o cumprimento recíproco das obrigações e a rejeição de interpretações que são totalmente contrárias ao texto explícito do memorando de entendimento”.

Rubio alegara que “não se pode ter o fim das hostilidades e conflitos na região enquanto proxies iranianos estiverem lançando mísseis e drones do Iraque e participando do terrorismo como o Hamas e o Hezbollah fizeram”, enquanto, sem quaisquer condicionantes, o memorando exige o fim das hostilidades em todas as frentes.

Uma completa inversão dos fatos históricos do expansionismo sionista na Terra Santa, ao atropelo da lei internacional e do reconhecido direito de resistir à ocupação, quando a mais alta corte mundial já investiga Israel por genocídio.

“Ninguém será enganado” por essa postura adotada pelos Estados Unidos de pretender reinterpretar o que está assinado, advertiu Baghaei.

“Não podemos ter uma região pacífica enquanto o militarismo e o intervencionismo americanos persistirem, e seu proxy ocupante continuar, com total impunidade, a infligir guerras intermináveis por toda a região e perpetrar genocídio, terrorismo, violência e todas as atrocidades”, enfatizou o porta-voz.

“O establishment governante norte-americano nunca demonstrou sinceridade em seu comportamento em relação à nação iraniana”, ele relembrou.

Baghaei destacou que, embora o Irã tivesse razões válidas – a exemplo do assassinato do aiatolá Ali Khamenei e da derrubada em 1953 do premiê Mogadeh, que nacionalizou o petróleo – para essa desconfiança, “ainda assim entrou no processo diplomático de boa-fé e assinou o memorando de entendimento para encerrar a guerra imposta”.

Os iranianos permanecerão atentos ao cumprimento do acordo e “tomarão cada passo com vigilância e à luz das experiências das últimas cinco décadas, especialmente dos acontecimentos do último ano e meio”, acrescentou.

Baghaei disse ainda que “as declarações contraditórias de autoridades norte-americanas sobre o memorando de entendimento para encerrar a guerra imposta não ajudarão a reduzir a desconfiança acumulada dos iranianos; ao contrário, apenas servem como um lembrete de violações passadas de compromissos”.

Outra “reinterpretação” do acordo foi rejeitada pelo próprio chefe dos negociadores iranianos, Mohammad Baqer Ghalibaf, que preside o parlamento iraniano e é ex-comandante da Guarda Revolucionária Iraniana. Segundo Washington, os ativos de Teerã a serem descongelados seriam gastos “em produtos agrícolas americanos”.

“A América afirma falsamente que nossos ativos descongelados comprarão a agricultura deles. Interessante”, Ghalibaf escreveu na plataforma de mídia social X.

“A única cultura que estamos colhendo é a que você plantou: décadas de desconfiança. É orgânico, abundante e cultivado em casa. Mas aparentemente os EUA só exportam soja transgênica, promessas quebradas e conversas provocativas.”

A reação iraniana se tornou pública após o presidente Trump dizer que o alívio financeiro inicial estabelecido pelo memorando mediado pelo Paquistão seria usado para comprar “milho, trigo e soja de agricultores americanos”.

O chefe da Casa Branca asseverou que nenhum dinheiro chegaria diretamente a Teerã e prometeu que os fundos seriam destinados aos produtores americanos para aliviar o “problema da fome” do Irã (sic).

Na verdade, o Irã alcançou 85% de autossuficiência alimentar, com a produção agrícola subindo de 28 milhões de toneladas antes da Revolução Islâmica para 139 milhões de toneladas hoje. “Durante quase quatro meses, quando o país enfrentou condições de guerra e várias restrições, não houve interrupção no fornecimento de bens essenciais ou na segurança alimentar do país”, afirmou o ministro da Agricultura, Gholamreza Nouri.

Scott Bessent, secretário do Tesouro dos EUA, disse à CNBC que funcionários do Tesouro seriam alocados no Catar para supervisionar a destinação desses fundos, destinados, na maior parte, à compra de alimentos e medicamentos dos EUA. “Então vamos reciclar o dinheiro de volta para produtos dos EUA”.

O governador do Banco Central, Abdolnasser Hemmati, disse que Teerã não tem “nenhuma exigência de comprar insumos agrícolas da América”, segundo o memorando assinado. E o porta-voz Esmaeil Baghaei, disse que os ativos liberados seriam usados livremente para comprar quaisquer bens que o Irã precisasse, com qualquer compra agrícola baseada em “preços e qualidade”, e não em condições impostas por Washington. “É interessante que a filosofia e o objetivo da guerra, que era a destruição da civilização iraniana e o colapso do Irã, tenham se tornado enriquecer os agricultores americanos”, ele ironizou.

Além de não estar no acordo, o remendo parece uma tentativa de engambelar os agricultores norte-americanos, boa parte deles até aqui eleitores de Trump, e que estão se sentindo vendidos pelo magnata que, com sua guerra de escolha, aumentou muito o custo do diesel e dos fertilizantes.

Fonte: Papiro