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Familiares de 20 militantes do PCdoB mortos pela ditadura receberam, nesta terça-feira (30), certidões de óbito corrigidas, nas quais passam a constar a responsabilidade do Estado ditatorial pelas torturas e assassinatos. Ao todo, 95 documentos foram disponibilizados.

O ato foi realizado no teatro do BNDES, no Rio de Janeiro, e reuniu familiares, autoridades e representantes da sociedade civil e de movimentos sociais. As certidões dizem respeito a perseguidos políticos nascidos ou mortos no Rio ou cujos parentes preferiram receber na cidade.

Entre as vítimas da ditadura que tiveram seus atestados de óbito corrigidos e entregues estão dirigentes e militantes históricos do partido, a grande maioria, integrante da Guerrilha do Araguaia. São eles: Armando Teixeira Fructuoso; Carlos Nicolau Danielli; Daniel Ribeiro Callado; Dinalva Oliveira Teixeira; Elmo Corrêa; Gilberto Olímpio Maria; Guilherme Gomes Lund; Hélio Luiz Navarro de Magalhães; Jana Moroni Barroso; Joel Vasconcelos Santos; Kleber Lemos da Silva; Lincoln Bicalho Roque; Lincoln Cordeiro Oest; Lúcia Maria de Souza; Luiz Ghilardini; Luiz René Silveira e Silva; Maria Célia Corrêa; Mauricio Grabois; Telma Regina Cordeiro Corrêa e Tobias Pereira Júnior (veja abaixo a lista completa dos 95 nomes).

Ao lembrar de seu pai, morto quando tinha apenas cinco anos, o filho mais novo de Danielli, Wladimir Danielli, lembrou: “Ele foi torturado por três dias e nada declarou aos seus algozes. Era um dos líderes da gloriosa Guerrilha do Araguaia, enfrentou com altivez e coragem seus assassinos. Foi preso no DOI-Codi de São Paulo, comandado pelo famigerado torturador Ustra — único assassino e torturador declarado pela Justiça brasileira, o que é muito pouco”.

Vitória Grabois, filha de Maurício Grabois, irmã de André Grabois e viúva de Gilberto Olímpio, todos integrantes da Guerrilha do Araguaia mortos por agentes da ditadura em 1973, declarou: “Esse atestado de óbito é importante porque o Estado brasileiro assume a responsabilidade pelo genocídio, pelo assassinato de mais de 454 brasileiros (número oficialmente reconhecido pela Comissão Nacional da Verdade). Mas, isso é pouco ainda”. E completou: “Queremos a verdade, queremos que o Estado nos diga onde, quando e quem matou os nossos familiares”.

A retificação dos documentos vem sendo viabilizada pela Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos (CEMDP) do Ministério dos Direitos Humanos e Cidadania (MDHC), em cumprimento às determinações da Comissão Nacional da Verdade (CNV) e resolução recente do Conselho Nacional de Justiça (CNJ).

A iniciativa é uma das ações do processo de retomada dessa agenda após o período de Jair Bolsonaro (PL), no qual a questão foi ignorada e políticas de memória e verdade foram descontinuadas ou enfraquecidas.

Segundo o MDHC, 400 certidões já foram corrigidas e 150 foram entregues aos familiares desde que esse processo teve início em 2024, durante o terceiro mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Violência que permanece

Durante a cerimônia, a ministra dos Direitos Humanos e Cidadania, Janine Mello, destacou que o término da ditadura não significou, necessariamente, o fim dos seus efeitos e que “as marcas da violência de Estado permanecem presentes nas famílias que perderam seus entes queridos, nas ausências que jamais puderam ser plenamente reparadas e nas estruturas institucionais que ainda desafiam a consolidação de uma democracia fundada na verdade, na justiça e na garantia de não repetição”.

Eugênia Augusta Gonzaga, presidenta da Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos, anunciou que o colegiado preparou o documento “Pacto por Memória, Verdade e Democracia”, dirigido a todos os candidatos que concorrem a diferentes cargos neste ano.

“A democracia é uma construção diária e coletiva e não podemos permitir retrocessos. Por essa razão, escolhemos este momento de reparação para fazer um convite formal a todos os candidatos e candidatas aos pleitos políticos de nosso país neste ano a aderirem ao pacto”, salientou.

Pouco antes de ter início a entrega dos documentos, Eugênia concluiu sua fala dizendo: “Quando ouço as famílias, ao longo de todas essas cerimônias, a frase que sempre me vem à cabeça é a do escritor Marcus Zusak (“A Meninas que Roubava Livros”) no sentido de que quando a morte conta uma história, todos nós precisamos parar para ouvi-la. Então, hoje é um dia em que o tempo precisará parar para ouvi-las. Não se trata apenas de um ato burocrático, é um imperativo ético. Retificar uma certidão de óbito, rasurada pela mentira do Estado, significa devolver a dignidade a quem teve a vida ceifada”.

Confira abaixo a lista dos documentos disponibilizados hoje.

Adauto Freire da Cruz 

Alberto Aleixo

Aldo de Sá Brito Souza Neto

Almir Custódio de Lima

Aluizio Palhano Pedreira Ferreira

Antogildo Pascoal Viana

Antônio Carlos Nogueira Cabral

Antônio Marcos Pinto de Oliveira

Antônio Sérgio de Mattos

Armando Teixeira Fructuoso

Carlos Eduardo Pires Fleury

Carlos Nicolau Danielli

Caiupy Alves de Castro

Celso Gilberto de Oliveira 

Chael Charles Schreier 

Cloves Dias de Amorim

Daniel Ribeiro Callado

David de Souza Meira 

Dilermano Mello do Nascimento

Dinalva Oliveira Teixeira

Edson Luiz Lima Souto

Edu Barreto Leite

Elmo Corrêa

Felix Escobar

Fernando Augusto da Fonseca

Fernando da Silva Lembo

Geraldo Bernardo da Silva

Gerson Theodoro de Oliveira

Getúlio de Oliveira Cabral 

Gilberto Olímpio Maria

Guilherme Gomes Lund

Gustavo Buarque Schiller

Hamilton Pereira Damasceno

Hélio Luiz Navarro de Magalhães

Israel Tavares Roque 

Itair José Veloso

Jana Moroni Barroso

João Massena Melo 

Joel Vasconcelos Santos

Joelson Crispim

José Dalmo Guimarães Lins 

José Jobim

José de Souza 

José Gomes Teixeira

José Mendes de Sá Roriz

José Raimundo da Costa

José Roberto Spiegner

Juares Guimarães de Brito

Kleber Lemos da Silva

Labibi Elias Abduch

Lígia Maria Salgado Nóbrega

Lincoln Bicalho Roque 

Lincoln Cordeiro Oest

Lourdes Maria Wanderley Pontes

Lourenço Camelo de Mesquita

Lúcia Maria de Souza

Luiz Carlos Augusto

Luiz Ghilardini

Luiz Paulo da Cruz Nunes

Luiz René Silveira e Silva

Lyda Monteiro da Silva

Manoel Alves de Oliveira

Manoel Fiel Filho

Manoel Rodrigues Ferreira

Marcos Antônio da Silva Lima 

Marcos Antônio Bráz de Carvalho

Marcos Nonato da Fonseca

Maria Célia Corrêa

Mariano Joaquim da Silva

Marilena Villas Boas Pinto

Mário Alves de Souza Vieira

Mário de Souza Prata

Mauricio Grabois

Mauricio Guilherme da Silveira

Merival Araújo 

Neide Alves dos Santos

Newton Eduardo de Oliveira 

Norberto Armando Habegger

Paulo César Botelho Massa 

Paulo Guerra Tavares

Raul Amaro Nin Ferreira

Reinaldo Silveira Pimenta

Roberto Cietto

Roberto Rascado Rodriguez

Sérgio Fernando Tula

Severino Elias de Mello 

Severino Viana Colou 

Solange Lourenço Gomes

Stuart Edgar Angel Jones

Telma Regina Cordeiro Corrêa

Tobias Pereira Júnior

Valdir Salles Saboia

Vitorino Alves Moitinho

Walter Ribeiro Novaes

Wilton Ferreira