Hugo Cortez, presente!
Começo pela lembrança de João Cabral de Melo Meto:
“(…) -Severino retirante,
deixe agora que lhe diga: eu não sei bem a resposta
da pergunta que fazia,
se não vale mais saltar
fora da ponte e da vida;
nem conheço essa resposta,
se quer mesmo que lhe diga;
é difícil defender,
só com palavras, a vida,
ainda mais quando ela é
esta que vê, severina;
mas se responder não pude
à pergunta que fazia,
ela, a vida, a respondeu
com sua presença viva.
E não há melhor resposta
que o espetáculo da vida”
E continuo agora. Se havia um traço que definia a pessoa de Hugo Cortez era a sua generosidade. É inesquecível para mim que num fim de ano, ele já doente e a falar com dificuldade, me deu de presente o volume da Poesia completa e Prosa de Joaquim Cardozo. Ele sabia que o bem seria precioso para mim, e que eu não estava tão bem de dinheiro para me dar tal preciosidade. Estou com o volume diante de mim, do qual não li tudo, e fastioso escolhi raros e belos poemas.
Hugo Cortez era filiado ao Partido Comunista do Brasil desde 1985. Mas eu o conheci na época de Ação Popular. Ele morava no Pina, em um prédio antigo e de paredes espessas, sem elevador. Eu morava perto, mas em Brasília Teimosa, que muitos diziam ser favela, mas que para mim era um lugar para estar ao lado do povo, naquele ideal de Ação Popular. Ali eu estava, no entanto, deslocado, porque era leitor de Proust, Joyce e Lukács, amante de música popular brasileira e de jazz. E só bebia cachaça com os pescadores, escondendo o que eu conhecia do mundo lá fora. Então, nos sábados à tarde, eu subia, talvez fugisse para o apartamento de Hugo, onde os pais dele nos suportavam a ouvir os discos de jazz na sala. Alto. Mas como era bom o alimento do espírito regado a doses de uísque ótimo, que seu Nelson, pai de Hugo, guardava para as visitas. Percebem? Eu era um imortal naquele sentido do Barão de Itararé, pois não tinha onde cair morto. Mas Hugo me recebia como um ilustre a me dar lições de músicos que eu não podia ouvir nem sabia da existência. E com uísque e queijos finos até as sombras da noite. Acontecimentos assim, generosidade de tal altura, nunca esquecemos.
Hugo Cortez era poliglota, lia e falava bem inglês, francês, espanhol e galego. Mas com tal preparo, apesar dessa felicidade, sofria do Mal de Parkinson. E eu ficava sem saber qual a causa, se o mal vinha das torturas na prisão, ou se de muito amor, desamor sofrido, como tantos de nós ou todos passamos. (Escrevi num romance sobre ele nesse estado, e até então eu escondi o texto para magoá-lo, não o ferir, nem a mim)
Mas acima, abaixo ou ao lado de tais dificuldades de fala e locomoção, de vista embaçada, vinha o dado maior da sua resistência. A sua curiosidade intelectual não cessava. Eu lhe fiz ver isso em um telefonema. Ele me respondeu que possuía a mesma vontade de conhecer que aos 20 anos de idade. Depois, pude ver: a sua curiosidade intelectual era sua razão de viver. Era a sua identidade. A de ser um resistente.
Antes, eu pensava em concluir um seu perfil possível com uma citação de Hugo Cortez, que li na sua página do Face: “Homo sum, humani nihil a me alienum puto”. Traduzindo: “Sou um homem e a mim nada de humano é estranho”. Isso para mim dava a sua medida. Na alegria e na tristeza, ele resistia aos golpes e não se queixava.
Mas ontem, ao visitá-lo no Hospital, ao vê-lo sem movimento no leito, pude anotar:
“Levei para o amigo Hugo Cortez, que se encontrava em estado crítico, a música Nature Boy por Nat King Cole, gravada em meu celular. Era a sua música preferida na voz de Nat King Cole.
Ao fim do Mal de Parkinson, meu amigo não conseguia mais dizer palavra que se pudesse escutar. Mas Hugo Cortez falou com os olhos rasos d’água”.
E desejei ao fim dessa anotação: “que toda pessoa tenha um fim digno”.
Hoje, recebo a notícia do seu falecimento.




